No coração do Brasil, as cantoras gêmeas MariMel fazem uma nota misteriosa ecoar em um palco que vibra
Na noite de 31 de dezembro de 2025, em um recanto afastado do mapa turístico tradicional, duas adolescentes surpreendentemente talentosas e singulares em presença subiram ao palco e transformaram o fim de ano em algo que parecia mais do que um espetáculo: uma experiência coletiva. O evento aconteceu no Recanto de Havalon, em Corguinho, Mato …
Na noite de 31 de dezembro de 2025, em um recanto afastado do mapa turístico tradicional, duas adolescentes surpreendentemente talentosas e singulares em presença subiram ao palco e transformaram o fim de ano em algo que parecia mais do que um espetáculo: uma experiência coletiva.
O evento aconteceu no Recanto de Havalon, em Corguinho, Mato Grosso do Sul. As jovens Mariana e Melina Azevedo Prado são, para o público, simplesmente MariMel. Conhecidas como a dupla de irmãs gêmeas “da nota Kall”, elas emocionam o público desde o primeiro acorde. O auditório estava cheio antes mesmo das luzes baixarem. Quando as artistas entraram, vestidas de forma quase espelhada, houve um alvoroço, aquela motivação que antecede algo que as pessoas ainda não sabem bem como definir. MariMel começou com canções autorais como ”Luz da sombra”, que desenha, em harmonia, uma espécie de geografia emocional com que as irmãs parecem trabalhar. As melodias se movem lentamente, mas nunca em linha reta, e o uso de vibrato — esse tremor microscópico da voz — torna-se protagonista, sem jamais soar excessivo. Outra canção autoral, uma das mais pedidas, é “Vibrante”. O nome por si só ajuda a descrever o efeito: havia algo naquela sequência de notas que parecia convidar os ouvintes a respirar de outro jeito, mais fundo, mais devagar. A programação foi além das músicas autorais, num encontro de cultura e arte. Quando surgiram as primeiras notas de “Garota de Ipanema”, o clássico funcionou como um teste de fogo. A dupla atravessou a melodia de Jobim com graça e propriedade. MariMel tratou a canção como se soprasse ar sobre um objeto conhecido, revelando detalhes de sua própria voz. O arranjo levou a bossa nova para o terreno em que as gêmeas se revelam singulares: um misto de reverência e identidade própria, no qual a tradição brasileira se dobra, ao filtro de duas jovens que se destacam a muitas milhas de qualquer cartão postal. Mas a história dessa noite não era apenas a música em si. O show fez parte do “Evento AC” do Instituto Dakila Pesquisas, entidade que pesquisou a chamada nota Kall e, a partir desse estudo, deu a ela forma e discurso: uma “oitava nota musical”, situada para além do dó‑ré‑mi‑fá‑sol‑lá‑si, associada a conceitos de vibração e frequência e chave de acesso a uma nova forma de ouvir e sentir. Em Dakila, Urandir Fernandes de Oliveira, figura central do instituto e presidente da instituição, foi o responsável pela descoberta do talento da dupla: ele foi o primeiro a notar, durante pequenas apresentações, algo no vibrato de MariMel que fugiu ao padrão. Urandir costuma ressaltar que “muitos artistas passam anos tentando alcançar esse efeito vocal que sempre esteve presente de forma natural nas gêmeas”. Na explicação do pesquisador, a nota Kall se aproxima do vibrato: uma frequência que oscila numa faixa específica, capaz de, segundo relatos dos próprios ouvintes, “tocar” o corpo humano de modo diferente. No palco, a performance se traduziu em notas longas, sustentadas com delicadeza, como se a voz das irmãs encontrasse um ponto de ressonância comum com quem as escutava. Ao final da apresentação, quando o roteiro parecia se dirigir a um encerramento convencional, o público fez outra escolha. As crianças deixaram seus lugares, com a urgência desajeitada de quem teme perder o momento, e subiram ao palco. As irmãs, ainda com os microfones nas mãos, se viram cercadas por mãos pequenas e olhos marejados. A cena tinha algo de improviso e de ensaio, como se o espetáculo só se completasse naquele gesto de aproximação física. Algumas crianças choravam sem saber exatamente o porquê, enquanto os adultos, mais ao fundo, enxugavam discretamente as próprias emoções. Em Corguinho, é fácil que se fale de MariMel como se fala de promessas de futuro: a carreira é descrita como promissora, as portas se abrem e os palcos surgindo como consequência natural. Mas, nesse 31 de dezembro, o que se impôs foi um presente muito concreto: cantar, ouvir de volta o silêncio atento, aceitar a mão de uma criança que sobe ao palco em busca de um abraço, transformar uma sala cheia em um espaço onde adultos e crianças se permitem chorar, sem constrangimento. No Recanto de Havalon, nessa virada de ano, a plateia deixou o local com a certeza de ter assistido a algo que foi ao mesmo tempo, performance artística e experimento sensorial. MariMel, por sua vez, saiu com mais uma história para acréscimo ao repertório: a de que, em um canto do interior brasileiro, duas adolescentes conseguem fazer de uma nota enigmática um detalhe quase secundário diante do fato essencial de que, no fim das contas, a música é, antes de tudo, aquilo que se passa dentro de quem ouve.


