As dificuldades da produção independente no Brasil

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As produções independentes brasileiras estão começando a ganhar espaço dentro do mercado de entretenimento no Brasil. As produtoras independentes, entretanto, veem suas produções sendo construídas em cima de muito esforço e muito amor pelo audiovisual e isso porquê o apoio e o retorno em cada produto ainda é muito difícil de se conquistar. Além disso, as produções nos diferentes estados brasileiros encaram diferentes obstáculos durante os processos de pré-produção, gravação e pós-produção. Exemplo dessa distinta forma de se produzir no Brasil, fica clara entre a produtora carioca Linha Produções e a produtora capixaba NAWEB Produções.

Já no mercado há algum tempo, a Linha Produções é responsável por webséries como “Além de Alice” e a premiada “Magenta”. Apesar de já possuírem reconhecimento no mercado, a produtora ainda encontra muitas dificuldades em parcerias e pessoas interessadas em investir no audiovisual independente na capital carioca. O Rio de Janeiro está, juntamente com São Paulo, no trecho de maiores produções independentes no país e, exatamente por esse motivo, são muitos criadores buscando por apoio financeiro e de outras formas para conseguirem seguir com seus produtos, o que dificulta ainda mais.

Segundo a proprietária da Linha Produções e também diretora e roteirista das webséries da produtora, Thaiane Soares, os criadores não buscam por apoio e financiamento a nível de Hollywood, mas para conseguir ter o bastante para se produzir uma websérie com mais tranquilidade, podendo pagar a equipe, fornecer figurinos e alimentação nos sets de gravação. “A nossa maior dificuldade hoje produzindo aqui no Rio de Janeiro e no cenário independente em si é a falta de dinheiro e de apoio do governo e de instituições privadas. A verdade é que não precisamos de valores exorbitantes, como acontece com as grandes produções, mas o bastante para conseguirmos trabalhar com tranquilidade, pagando a equipe e a produção em si”, afirma Thaiane.

Outra problemática encontrada pela Linha Produções, passa a ser achar apoiadores dispostos a vincularem suas marcas para financiar projetos que contam histórias com uma grande representatividade da comunidade LGBTQ+, por exemplo. Ademais as dificuldades de dinheiro e apoio, encontra-se a marca do preconceito instaurado dentro de uma sociedade conservadora. Espelho dessa realidade, foi a proposta de corte em investimentos em projetos com temáticas LGBTQ+ pelo atual presidente do país, Jair Bolsonaro, prevista em uma portaria que impedia a conclusão do edital da Agência Nacional de Cinema (Ancine). Segundo o Ministério Público Federal, a propota foi considerada um ato de censura e felizmente, a Justiça Federal no Rio de Janeiro, suspendeu a portaria.

“Queremos poder continuar contando nossas histórias, que ainda não são aceitas nas grandes mídias. A alta sociedade, os empresários e o próprio governo precisam começar a nos olhar com outros olhos ou, simplesmente, nos enxergar e enxergar esse mercado de produções independentes que está crescendo. Nós temos muita coisa a dizer e temos, principalmente, mensagens incríveis para passar para o mundo”, diz Thaiane.

Já para a produtora capixaba NAWEB produções, os obstáculos partiram de outro ponto. Surpreendentemente, ao começarem a colocar em prática a ideia da primeira websérie da produtora, “Vidas Reversas”, os sócios Giovanna Gomes, Jéssica Zanotelli e Marcelo Monteiro, encontraram um mercado aberto a oferecer parcerias para produção. No total foram 14 parcerias entre alimentação, figurino, locações e equipamentos, diminuindo os gastos da produtora e facilitando a conclusão do projeto, que se encontra em processo de pós-produção.

Segundo a sócia e atriz Giovanna Gomes, a maior dificuldade de produção encontrada pela NAWEB Produções foi a falta de experiência no mercado e nesse tipo de projeto, que ainda é escassa no Espírito Santo. “Tivemos que aprender tudo do zero e, obviamente, não esperávamos uma produção de alta qualidade. Nesse momento estamos em processo de pós-produção e acredito que ficaremos mais satisfeitos do que era esperado no início. Além disso, acredito que estamos dando um start para uma forma diferente de produção no estado e isso é incrível”, afirma Giovanna.

O Espírito Santo fica atrás em comparação a locais como Rio de Janeiro, São Paulo e alguns estados do  nordeste, em questão de produção. A produção independente ainda é algo muito novo e pouco conhecido até para quem produz audiovisual no estado. Além das parcerias e apoiadores já citados, a produtora contou com uma equipe de câmera, som, direção e fotografia aptos para exercer, mas ainda sem experiência na área. “No nosso estado há muita falta de mão de obra com experiências em produção independente. A nossa equipe foi construída através de uma rede de amizades, que, generosamente, se disponibilizaram para fazer ‘Vidas Reversas’ acontecer, em sua maioria, estudantes de jornalismo”, conta Giovanna.

Para completar o time de produção de “Vidas Reversas”, a NAWEB Produções contou com a experiência dos atores Priscilla Pugliese e Rodrigo Tardelli, que possuem em sociedade uma das  maiores produtoras de conteúdo independente no Rio de Janeiro, a Ponto Ação Produções, juntamente com Natalie Smith. Priscilla e Rodrigo, além de protagonizarem na websérie, contribuíram com a experiência de quem já está há algum tempo no mercado, como a preparação de alguns atores do elenco, jogo de câmera e cortes.

Mesmo com todas as dificuldades e obstáculos que a produção independente encara, ainda é através dela que muitas produtoras contam histórias, atores ganham experiência e assuntos poucos falados, abandonam o tabu para estarem como centro das atenções. “Eu ainda me pergunto todos os dias o porquê de continuar produzindo, mesmo com tanta dificuldade e às vezes tendo que contar moedas no final do mês. A verdade é que todas às vezes que alguém me diz que a minha produção mudou a vida dessa pessoa ou a tocou de alguma forma, eu esqueço a vontade de desistir. O amor pelo o que eu faço sempre prevalece no final”, conclui Thaiane Soares.

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